31 dezembro 2009

MINARETICES

O referendo na Suíça teve o condão de abrir uma espécie de caixa de Pandora jornalística ou então algo como uma anti-caverna de Ali-Babá tal a sorte de idiotices (claro que muito bem pensantes na sua roupagem “politicamentecorretês”) que vem sendo grafada nos órgãos de comunicação social.
A primeira questão a referir, não sendo original mas importante de relembrar, é a de que, neste mundo profundamente ditatorial (talvez hoje, como em nenhum outro momento da história, se assiste a um total condicionamento das mentes, digo-o claramente, das mentes, que não já apenas do que se diz…), os referendos só são interessantes, importantes e outros sonoros adjectivos se forem ao encontro do que os polícias do pensamento único (quais guardiões do sistema) deles esperam e defendem. Caso contrário das duas, uma: ou se convocam tantas vezes quantas as necessárias à obtenção do desejado ou simplesmente “aquela” questão não deveria ser referendada. Esta última opção pressupondo que tal consulta fica a coberto dos muitos dogmas deste mundo moderno.
E a verdade é que as opiniões que têm vindo de diversos quadrantes e, não raras vezes revestidas de grande tolerância e sobretudo daquela auctoritas que os romanos emprestavam às coisas solenes. Sem pretender exaustivamente acompanhar “a coisa” até porque muitos (alguns não terão ido a tempo por falta de oportunidade… ou de espaço jornalístico) não quiseram deixar de vincar a sua condição de homens modernos, avançados e tolerantes (esta é, habituem-se, a linguagem dos nossos dias, pois quem não a fala e pratica é pouco mais que destituído ou troglodita, já se sabe…). Tomei, nesta abordagem pessoal, diversas páginas do “Público” (o mais vermelhusco e, consequentemente, “moderno, avançado e tolerante” e, quase me esquecia, “intelectual”, dos nossos jornais diários) para revisitar este tema. Em nenhuma das crónicas de tão democrático meio de comunicação social se registou, sem remoques ou comentários, a opinião soberana dos suíços, aventando-se mesmo que, tal consulta, ía contra direitos básicos e elementares (sejam lá o que forem esses tais “direitos”[1]), enfim, como já tinha dito todos os referendos são bons, se…
Um eurodeputado, residente daquele jornal, que milita lá para as bandas da extrema canhota (e que para infortúnio da musa Clio é meu colega, embora creio que de História da Arte…) perorava sobre como somos – os europeus descrentes da bondade dos muçulmanos que nos invadem – ignorantes ao não lembrar que as próprias torres alongadas das nossas igrejas (presumo que pós-góticas) se tinham inspirado directamente na moda dos minaretes vislumbrados quando das cruzadas. Não sei se assim é (desculpar-me-ão os leitores os meus lanhos rudimentos de História da Arte), mas como dizia o outro se non è vero pelo menos è bene trovato; ora então regressados da Palestina lá começamos a apontar agulhas ao céu. Como podíamos então, oh suprema ingratidão, negar no século XXI esse tão interessante contributo arquitectónico, seguramente só por razões indescritíveis. Buscou-se depois um turco – membro da Amnistia Turca - que, lá muito a custo se foi lembrando que na Turquia (esse grande exemplo de laicidade no islão) até há poucos anos (2003) não era permitida a construção de igrejas, pois a legislação só previa mesquitas. Lembrava que no país as igrejas e mesquitas conviviam há 600 anos… Não sei se quereria tomar-nos por parvos ou ocultar a origem da principal mesquita de Istambul, proverbial exemplo da tolerância otomana... Não sei se ignorará que não existem levas de cristãos a imigrarem para a Turquia e a impor os seus costumes e valores à cultura local. Islamofobia é o veredicto, racismo, intolerância e o sempre conveniente “novo anti-semitismo”, os anátemas. De qualquer modo creio, e para a analogia ser completa, que ninguém pretendeu derrubar (ao contrário do que já neste mesmo século os muçulmanos dos Balcãs fizeram só após 2004 a mais de cem igrejas) as mesquitas que possam historicamente conviver com templos cristãos há seiscentos anos ou mais em diversos locais da Europa. As mistificações são claras mas o opróbrio e a vergonha que devem impender sobre os suíços (e por arrasto sobre a generalidade dos europeus que partilharem idênticas preocupações) esses estão garantidos e a vergonha assegurada. A intolerância da Europa garantida, mas a do Islão jamais aflorada… Mas o contributo de posições dogmáticas e pouco sérias, para mais não dizer, não haveria de ficar por estes contributos.
A terreiro saiu ainda um antigo presidente da república, agora “Alto representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações” que, sem directamente focar a questão em apreço, lá ia dizendo que a opção suíça decorria de “medos e preconceitos” que possibilitavam o crescimento de um discurso de extrema-direita e anti imigração. Numa conversa muito redonda, mas correctíssima com certeza, onde os benefícios da emigração não foram esquecidos, onde se resumiu a questão a um mero assunto cultural e jamais se lembraram os direitos e anseios da Europa e dos europeus, surgiu como tábua de salvação o famoso “diálogo intercultural”, mais uma das grandes invenções (aliás bem “vendida”) dos nossos dias tendente à globalização e multi-culturalidade que apagará a Europa do mapa. Porquanto, como é sabido, e aqui não esquecido, há que salvaguardar “aborígenes e as primeiras nações, até aos imigrantes na Europa, na América do Norte e nos estados do Golfo, passando pelas minorias religiosas no Médio Oriente, na África e na Ásia”. Só a Europa e seus habitantes (os tais com medos e preconceitos) é que não carecem da protecção de ninguém… É realmente pesado o “fardo do homem branco”…
Por fim uma conhecida “investigadora em assuntos judaicos” discorrendo sobre o referendo no “país das vaquinhas sorridentes” veio também acrescentar-nos aspectos da maior valia. Usando uma estratégia dissimulada, como é seu timbre, começou por afirmar que o referendo constituiu um “atentado à liberdade religiosa” e citando um sociólogo relembrou que “não cabe às maiorias decidir sobre os direitos das minorias” (então como funciona a democracia? Será esta máxima aplicável em Israel? E nos colonatos e territórios ocupados?), embora reconhecendo que o que está em causa é o medo de perda de identidade pelas populações europeias, sobretudo porque o “islão, não tendo experiência histórica da separação entre a vivência cívica e a religiosa, é uma presença visível e culturalmente diversa [impositiva mesmo, acrescentaria eu…] que mexe com o espaço público e representa um desafio”. Todavia, porque um anterior cronista, correctamente aliás, usou a expressão “anti-semitismo” (são semitas, na realidade, quer árabes, quer hebreus), desvairada a isenta investigadora perdeu a tramontana e toca de defender a sua “dama”. “Toda e qualquer analogia entre o anti-semitismo e o que hoje se chama de islamofobia é falsa e só serve para confundir os espíritos”. Como sabem os judeus pretendem deter, indevidamente sublinhe-se, a “trade mark” do anti-semitismo (labéu, como disse, extensível a todos os povos semitas), fazendo-a corresponder e confundir com anti-sionismo e anti-judaismo, coisas bem diferentes quando se procura a seriedade… Indignada, e já quase esquecendo o opróbrio contra os muçulmanos, explicou, num momento assaz delirante a grande diferença entre este e aquele, sendo que, no caso dos judeus, se tratou de algo que “tinha como alvo uma população judaica extremamente minoritária e altamente integrada, até parcialmente assimilada na sociedade europeia e reivindicando prioritariamente a sua condição nacional e europeia”. Perdão, se assim era urge perguntar porque razão, então, foram os judeus perseguidos e descriminados um pouco por toda a Europa. Não raras vezes o delírio, como se vê, afecta a investigação e, sobretudo, a objectividade. Mas mesmo assim não concluiu sem vaticinar: “A Europa branca, religiosa e culturalmente homogénea está a deixar de o ser e é ilusório querer fazer marcha atrás”, devendo-se apostar numa “cidadania fundamentada não no solo nem no sangue, mas na aceitação de regras comuns e valores partilhados” o que dito por uma judia não deixa de ser, no mínimo dos mínimos, surpreendente…
Como se pode ver as “minaretices” deram pano para mangas…

[1] Recordo sempre as frontais palavras do meu querido amigo António Marques Bessa a propósito dos “direitos do homem”, considerados como valor absoluto, “se vocês estiverem a ser devorados por um leão, invocam os «direitos do homem» e salvam-se?”, na realidade, nos nossos dias muitas das nossas criações se transformaram em dogmas, em sociedades que se consideram anti-dogmáticas… Paradoxos destes tempos.

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4 Comments:

Blogger José Domingos said...

É claro que há pressões para se aceitar os minaretes,depois as burkas e depois a sharia.
Nós temos a superioridade moral de aceitarmos outras civilizações, não somos é intransigentes religiosos,e não aceitamos ser formatados pela visão da esquerda, que tão bons resultados tem dado.Mais estranho, estas aves canoras que por aí pululam,quais eminências pardas, pois todos eles, têm o seu próprio dogma, o seu passado. O cumulo da hipócrisia, é o terrorista libio falar em direitos humanos, vergonha.
Bom Ano para todos os Patriotas.

quinta-feira, 31 dezembro, 2009  
Blogger harms said...

Felizmente, de acordo com os últimos dados, o Público está cada vez pior em termos de vendas. Já nem chega às 40.000. Claro que isso é secundário, sobretudo enquanto der jeito ao capital a sua existência. Aquilo é um sorvedouro de dinheiro, mas serve para marcar posição, para educar as massas e combater o fascismo. Ainda ontem, na edição online, não disseram que o atirador na Finlândia era kosovar. A SIC também se esqueceu de referir isso. Por acaso a TVI deu destaque á coisa. Mas, enfim, é a nossa comunicação social. O JMF era liberal e tal, mas ainda deixava passar uma ou outra coisa. Agora esta Bárbara Reis, coitada. Basta dizer que a crónica mais estupidamente politicamente correcta que li até hoje é da autoria dela. Aquilo agora é Rui Tavares e afins. Estão nas suas sete quintas. Mas já sabemos isso há muito. Saúde e bom 2010.

sexta-feira, 01 janeiro, 2010  
Blogger Nuno Castelo-Branco said...

Não sei porquê, mas tornei-me mais benevolente para com a Suíça. Que esquisito...

domingo, 03 janeiro, 2010  
Blogger Unknown said...

Muitos parabéns pelo artigo. É pena não ser publicado num jornal nacional. Abraço HNO

segunda-feira, 11 janeiro, 2010  

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