29 julho 2010

TRÊS MARIAS...

Sou, confesso, um enorme apreciador do nosso vinho verde (aquele que alguns "puristas" mais distraídos desconsideram com alguma leviandade e, manifesta, injustiça). É um produto nosso, específico, de inegável qualidade, fino sabor e paladar tão característico. Gosto dele acompanhando várias das nossas notáveis especialidades gastronómicas embora, como com todos os vinhos, a sua aptidão se revele melhor com algumas delas. Lembra-me sempre o nosso belo Minho que lhe dá berço, nostálgico, puro e de gente sã e hospitaleira. Acho, verdadeiramente, que condiz com as gentes que o produzem, francas e sedutoras, e tal como ele, a um tempo austeras e aveludadas.
Reduto de uma Portugalidade de antanho, o Minho, preserva essências de um Portugal tradicional, impoluto e menos sujeito às contaminações desta globalização e mundialismos niveladores e padronizadores. Como aliás, felizmente, ainda em muitos outros sítios do território nacional, sente-se ali Portugal.
Entre os vinhos verdes existia, digo-o no passado por razões que adiante aduzirei, um vinho corrente das Caves do Casalinho (de Santo Adrião de Vizela), o "Três Marias" de castas Azal, Trajadura e Arinto (Pedernã), um vinho corrente mas honesto de cor citrina e aroma fresco e equilibrado com um final macio, ainda que fresco. Uma boa "pomada" dir-se-ia numa linguagem sem pretensões de erudição. Uma das coisas que me fascinava nesse vinho era o fabuloso rótulo (alguém arranja e me envia uma reprodução de qualidade?), que apresentava, fazendo juz ao nome, três belas moçoilas minhotas, devidamente ataviadas com o traje regional, uma ruiva (tipo com alguma predominância entre as mulheres da região seguramente por influência céltica), uma trigueira e uma loira escura com as cabeças parcialmente cobertas pelo tradicional lenço. Num fabuloso rótulo se consubstanciava o fundo rácico atlântico (mas não atlante...) das nossas gentes. Uma beleza de simplicidade que cativava o meu olhar e atenção e que ainda hoje recordo com saudade. Porém, nestes novos tempos, de multiculturalismo e miscigenação galopante (quase, quase, já imposta...), esse belo rótulo, e com ele a maior parte do encanto que esse vinho sobre mim exercia, foi substituído por um, subordinado aos ditames do politicamente correcto onde as três marias são reduzidas a um singelo contorno (do perfil de outrora) e as feições substituídas por uma renda (igualmente bela e portuguesa) que em nada se equipara à beleza pura, inata e espontânea da marca que nos fazia sonhar muito para lá do vinho, sinais dos tempos...

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4 Comments:

Blogger DB said...

O vinho verde não consigo apreciar. Mas quanto ao "fundo atlante", gostei da evocação do grande Gen. João de Almeida.

Para quando um regresso ao nossos castelos assentes em blocos ciclópicos?

Abraço.

quinta-feira, 29 julho, 2010  
Blogger HNO said...

Grande, grande João de Almeida, se a sua obra fosse cultivada este país seria bem diferente.
Abraço

quinta-feira, 29 julho, 2010  
Blogger Flávio Gonçalves said...

http://oblogdoanao.blogs.sapo.pt/6576.html


Título: Verde vinho
Intérprete: Paulo Alexandre
Álbum: ?
Ano: 1978


Ninguém na rua na noite fria
Só eu e o luar
Voltava a casa quando vi que havia
Luz num velho bar
Não hesitei
Fazia frio e nele entrei

Estando tão longe da minha terra
Tive a sensação
De ter entrado numa taberna
De Braga ou Monção
E um homem velho se acercou
E assim falou:

Vamos brindar com vinho verde
Que é do meu Portugal
E o vinho verde me fará recordar
A aldeia branca que deixei atrás do mar

Vamos brindar com verde vinho
P'ra que possa cantar
Canções do Minho que me fazem sonhar
Com o momento de voltar ao lar

Falou-me então daquele dia triste
O velho Luís
Em que deixara tudo quanto existe
Para o fazer feliz
A noiva, a mãe, a casa, o pai
E o cão também

Pensando agora naquela cena
Que na "estranja" vi
Recordo a mágoa, recordo a pena
Que com ele vivi
Bom português
Regressa breve e vem de vez

Vamos brindar com vinho verde
Que é do meu Portugal
E o vinho verde me fará recordar
A aldeia branca que deixei atrás do mar

Vamos brindar com verde vinho
P'ra que possa cantar
Canções do Minho que me fazem sonhar
Com o momento de voltar ao lar

quinta-feira, 05 agosto, 2010  
Blogger Rui Ventura said...

Boa tarde
Um tres maria com o tal r´tulo das moçoilas coloridas ,ainda se pode beber ?
O 2000 ainda te valor comercial ?

quarta-feira, 17 dezembro, 2014  

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